Karl Marx
É com enorme satisfação que a Editora Marxista lança no Brasil o livro de Alan Woods, Reformismo ou Revolução. O livro, já editado em dezenas de países em diferentes línguas, não poderia ser publicado em momento mais oportuno. Aqui no Brasil dividimos a obra em três partes. Além da primeira parte que lançamos agora, lançaremos ainda as duas restantes ao longo de 2009.
Por tratar-se de uma obra tão rica e que aborda tantas discussões essenciais para os marxistas, escrever este prefácio é tarefa das mais complicadas. Entretanto, como aceitamos o desafio, vamos tentar explicitar aqui porque a leitura desse livro é tão fundamental.
O fio condutor de Reformismo e Revolução é responder às ideias de Heinz Dietrich, professor da Universidade Autônoma do México e que reivindica para si o título de teórico do “Socialismo do Século XXI”, teoria esta que tem como pano fundo as transformações ocorridas na Venezuela nos últimos anos.
Como Alan nos mostra de uma forma contundente, mas ao mesmo tempo muito bem-humorada e irônica, é que por trás da pretensa “sofisticação” e da “originalidade” das ideias de Dietrich, encontramos uma surrada repetição de fórmulas reformistas que nada se diferenciam em essência do que os reformistas de diferentes matizes têm dito há pelo menos 100 anos.
Na melhor das hipóteses, poderíamos qualificar as teorias de Dietrich como uma retomada tardia de certas ideias dos “socialistas utópicos” do século 19. Estes últimos, como Saint-Simon e Fourier, buscaram oferecer alternativas ao capitalismo e às consequências nefastas da Revolução Industrial no século 19. Marx polemizou duramente com os “utópicos” que tinham uma visão idealista e não científica do capitalismo. Mas ao mesmo tempo, não deixou de louvar o compromisso sincero de muitos daqueles pensadores e militantes que, embora equivocados, buscavam um caminho para a emancipação dos trabalhadores.
Dietrich não é apenas anacrônico. É muito pior que isso. Vejamos apenas uma de suas ideias: “A forma de propriedade privada dos meios de produção não tem maior importância para a realização do princípio de equivalência para uma primeira fase, na transição à economia equivalente”.
Não vamos fazer reproduzir aqui toda a crítica que Alan faz de maneira pertinente a esta ideia, mas apenas reter seu eixo central. Dietrich teoriza a transição para uma nova sociedade – sem revolução – onde prevaleceria uma “economia de equivalentes”. Depois de muito tentar entender seu pensamento confuso, chegamos à conclusão que ele crê que seja possível a existência de uma sociedade onde não haja mais exploração do trabalho, e onde os trabalhadores recebam o mesmo valor que produzem. Assim estaria suprimida a base da mais valia, que consiste justamente no fato do capital sugar trabalho não-pago para se valorizar e obter lucros.
Todo o problema aqui é que Dietrich quer fazê-lo independentemente da forma de propriedade dos meios de produção. Ora, é justamente a propriedade privada capitalista, que tem como pressuposto a separação total dos trabalhadores dos meios de produção, que está na base desta máquina de produção de trabalho não-pago que se chama capitalismo. Marx explicava há mais de 150 anos que a força de trabalho no capitalismo é uma mercadoria “mágica”, pelo fato de que ela tem a capacidade de produzir um valor maior (trabalho excedente, não pago, ou mais-valia) do que o valor necessário para a manutenção da força de trabalho (trabalho necessário ou salários).
Dietrich acredita que através do convencimento e da mera persuasão é possível os capitalistas aceitarem que os trabalhadores recebam salários equivalentes ao valor por eles produzidos. Em outras palavras, ele acredita que os capitalistas, de maneira pacífica e sem conflito, aceitariam... deixar de serem capitalistas!!! Ou como escreve Alan Woods:
Vemos, aqui, o abismo que separa o pensamento de Dietrich do marxismo. Para Marx, o sistema capitalista tinha que ser derrubado pelo movimento revolucionário da classe trabalhadora; para os socialistas utópicos e para Dietrich, ele pode se metamorfosear numa “sociedade nova e justa” eliminando o “intercâmbio desigual”, enquanto é mantido o sistema econômico em que se baseia o intercâmbio e o dinheiro, isto é, o capitalismo. Que significam estas palavras? Para Marx, o socialismo não somente era uma boa ideia, ou, para citar a frase favorita de Dietrich, “um projeto histórico”; era o resultado inevitável do desenvolvimento do próprio capitalismo. Em sua avidez de ganho pessoal, a burguesia desenvolveu as forças produtivas até um nível nunca visto e, portanto, criou as condições objetivas para o socialismo.
Tais ideias utópicas, compreensíveis no contexto de surgimento do capitalismo e da luta de classes moderna no século 19, adquirem um caráter não apenas anacrônico, mas também reacionário no pensamento de Dietrich.
Dizemos isso não apenas porque tais ideias se mostraram totalmente irrealizáveis depois um século e meio do desenvolvimento teórico e prático da luta da classe trabalhadora, mas também pelo fato dele utilizar justamente a Revolução Venezuelana como “laboratório” de suas extravagantes teorias.
E justamente seu abandono completo da perspectiva revolucionária o leva a afirmar em relação à Venezuela que:
(...) se não tens a teoria divulgada entre as pessoas, se não tens movimentos de massa nem vanguardas para realizá-la, será uma quimera falar do socialismo como uma alternativa ao capitalismo neoliberal. A alternativa imediata é o keynesianismo, o capitalismo desenvolvimentista de Estado. Isto, naturalmente, com o horizonte estratégico do socialismo, tem de combinar os dois elementos, porque os camponeses, os desempregados, querem uma resposta imediata e não pode ser o socialismo a resposta imediata. Devem ser vinculados os dois projetos históricos: o keynesianismo e o socialismo do século XXI.
Transpor as ideias de Dietrich para o contexto da Venezuela significa dizer: não podemos pensar em socialismo hoje! Talvez, quando as massas e a vanguarda absorverem a teoria (de Dietrich!) podemos propô-lo num futuro incerto. Hoje o keynesianismo e o desenvolvimentismo burguês são o máximo factível no horizonte! Isto num momento onde o necessário é justamente a organização da classe operária para a expropriação da burguesia, e para a substituição do Estado burguês por um Estado dirigido e controlado democraticamente pelos trabalhadores.
Num país como a Venezuela, onde os trabalhadores têm dado sucessivas demonstrações de resistência e de consciência de classe, a perspectiva revolucionária está colocada inequivocamente para hoje. Pleitear o “keynesianismo” e o “desenvolvimentismo” de Dietrich é fazer coro com a oligarquia venezuelana e com aqueles que dentro do Estado querem boicotar a Revolução e que querem, a todo custo, trazer Chávez para uma política que mantenha no essencial a dominação do capital.
As posições políticas Dietrich estão longe de credenciá-lo como um sincero defensor da Revolução Venezuelana. Entretanto, ele é mais um que jura de pé junto que também é marxista...
Fim das ideologias?
As questões acima expostas já demonstram a importância do debate que a leitura de Reformismo ou Revolução nos oferece. Entretanto, certamente seria legítimo alguém perguntar: vale a pena gastar tanta tinta para responder a Dietrich? Quem é Dietrich? De fato ele é tão importante para que se escreva um livro contra suas ideias?
O fato de que Dietrich acabou virando o guru teórico de muitos reformistas na Venezuela e em partes da América Latina é uma das justificativas do livro. Mas há outras ainda mais importantes...
O livro de Alan Woods é muito mais do que uma resposta a Dietrich. Na verdade, é uma resposta contra toda uma série de teóricos e intelectuais que buscam negar a validade e atualidade do marxismo. Também é uma resposta para todos aqueles que pretendem dissociar o marxismo de sua essência revolucionária.
Vivemos nas últimas décadas, em especial após a queda da URSS e do Muro de Berlim, uma verdadeira avalanche ideológica contra o marxismo. Os intelectuais da burguesia buscaram a todo o custo – e conseguiram em grande medida - associar a derrocada dos regimes de inspiração stalinista do Leste Europeu à falência do marxismo e do socialismo. As monstruosidades de Stálin e dos burocratas que o sucederam foram apresentadas como consequências lógicas das ideias não só de Marx, como também de Engels, Lênin e Trotsky.
Mas não é apenas o marxismo que foi vítima de tal avalanche. Os próprios valores históricos da burguesia consagrados com o Iluminismo e a Revolução Francesa de 1789, como o racionalismo, o progresso, a liberdade e a igualdade foram colocados em questão diante da nova visão “pós-moderna” de mundo.
Como nos explica Alan, nesta visão não há lugar para ideologias (nem mesmo para as ideologias burguesas como o liberalismo) e perde-se a noção dos grandes valores universais e dos grandes projetos políticos. O pensamento burguês do século 21 nega qualquer possibilidade de transformação coletiva e de ideias que possam abarcar toda a humanidade.
Isso tem como reflexo direto um profundo empobrecimento da ciência (em especial das ciências humanas), pois a visão “pós moderna” afirma ser impossível compreender a essência e a totalidade dos processos sociais. Não fala – e não se pode falar mais - de capitalismo, socialismo, luta de classes, sistemas econômicos, países dominados e países que dominam. O conhecimento passa a ser cada vez mais fragmentado e isolado do todo. O relativismo é a palavra de ordem: para o pós-modernismo não se pode dizer que uma ideia ou ação política é melhor do que outra.
Como Alan bem explica em Reformismo ou Revolução o pano de fundo desta visão de mundo é a profunda crise moral por que passa o irracional e bárbaro sistema capitalista. A burguesia não pode mais oferecer qualquer visão de futuro como já fez no passado e por isso tem de rasgar as suas próprias bandeiras.
Desta forma, o pós-modernismo no fundo é a tentativa de relativizar tudo para deixar tudo como está. E como nos mostra Alan, é justamente o marxismo que tem as condições de oferecer uma alternativa contra “as coisas como elas estão”. Vivemos hoje a profunda contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas, que poderiam garantir uma vida digna para o conjunto da humanidade, e as relações de produção capitalistas, que reproduzem incessantemente a miséria e as injustiças. Como disse Trotsky, as condições objetivas para o socialismo estão mais do que maduras, mas resta ainda conquistarmos as condições subjetivas (organização revolucionária dos trabalhadores).
A recente crise econômica escancara de forma cristalina as contradições do regime da propriedade privada dos meios de produção. Para nós é evidente que o marxismo se impõe como meio de explicação do mundo contra todos os profetas burgueses que previram o “fim das ideologias” e do “fim da história”. Mas qual marxismo?
Em defesa do marxismo revolucionário
Reformismo ou Revolução foi escrito pouco antes da grande crise econômica cujo estouro se deu no segundo semestre de 2008. Um fenômeno interessante que acompanha estes novos tempos é o resgate – por uma gama bastante heterogênea de pessoas – das ideias de Karl Marx.
O insuspeito megaespeculador George Soros recentemente pagou seu tributo ao velho revolucionário alemão: “Ando lendo Marx e há coisas muito interessantes no que ele diz”.
Curioso sinal dos tempos! É evidente que Soros está muito longe de qualquer posição revolucionária ou mesmo de esquerda. Mas é fato que sua frase é uma demonstração contundente de que, diante da incapacidade da burguesia e de suas teorias preverem a atual crise, a interpretação marxista do capitalismo não pode ser mais tão achincalhada como foi nas últimas décadas.
Mas aqui reside outra questão de fundo abordada em Reformismo ou Revolução. Marx (e o marxismo) nunca se limitaram a meramente “interpretar” a sociedade burguesa, como nos afirma a célebre frase dele próprio nas Teses Sobre Feuerbach: “Os filósofos até agora se limitaram a interpretar o mundo; cabe agora transformá-lo”. O marxismo nunca foi apenas mais uma doutrina de explicação do mundo tal como ele é. O marxismo – expressado por seus grandes expoentes como Marx, Engels, Lênin e Trotsky – é fundamentalmente uma teoria revolucionária de ruptura com o que aí está , uma teoria para ação política da classe trabalhadora. Infelizmente, entretanto, isto está longe de ser unanimidade...
Em recente entrevista, o conhecido historiador inglês Eric Hobsbawm – que, diferentemente de Soros, se coloca no campo da esquerda - busca resgatar Marx a sua maneira. “Sigo na esquerda sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin“ ,diz o historiador. Afirma ainda que Marx será o “filósofo do século 21”, mas que todavia, ele apenas voltará como inspiração política quando “se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos.” Inclusive porque, para Hobsbawm, é preciso reconhecer que “o ‘proletariado` dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social”.
O marxismo não serve mesmo para elaborar programas políticos?
Em primeiro lugar, devemos aqui descartar a crítica generalizada que muitos intelectuais fazem do marxismo militante, do marxismo revolucionário, crítica esta que é ecoada nas frases de Hobsbawm.
Uma coisa é dizer que marxismo não é um dogma, uma bula que deve ser aplicada mecanicamente na realidade. Entre a teoria e a sua aplicação na política concreta sempre deve existir uma série de mediações que leve em conta a consciência dos trabalhadores, sua experiência de luta, a batalha ideológica que ocorre na sociedade, etc...
Todavia, a posição de Hobsbawm nos leva a um beco sem saída. Ele sim que separa mecanicamente o aspecto “interpretação” do aspecto “ação”, que em nossa opinião devem estar sempre ligados no marxismo. Sem programa político não há ação. A inação é o programa de Hobsbawm.
O que está implícito neste debate é a questão da Revolução, sem dúvida alguma. Como para o historiador o proletariado deixou de ser o agente histórico da transformação, ele é coerente à sua maneira ao dizer que Lênin – o grande teórico e líder da Revolução Russa - deve ser descartado.
Seria este o tipo de marxismo ao qual deveríamos aderir?
Achamos que não. Para ajudar a classe trabalhadora e suas organizações a avançarem em sua luta e consciência, é preciso dizer claramente onde queremos chegar. Se não definirmos o fim de nosso caminho com clareza, nos perderemos em toda uma série de atalhos que aparecem pela estrada.
Nosso fim é o socialismo. Para tanto o caminho é o caminho da Revolução, da expropriação da burguesia. O caminho de uma economia planificada sob controle democrático dos trabalhadores em que haja o combate aos desvios burocráticos que mancharam o nome do socialismo com a experiência stalinista.
É certo que ninguém tem um programa político acabado que dê conta de tais desafios. Mas é somente atuando junto ao proletariado que se pode formular tal programa.
A importância do Partido e da Internacional
Reformismo e Revolução nos apresenta também um rico debate acerca da particularidade histórica da luta pelo socialismo. A transição do capitalismo ao socialismo, diferentemente da transição de outros modos de produção e formações sociais, pressupõe uma ação consciente e planejada dos seres humanos. Por isso a importância do Partido Revolucionário e da Internacional Revolucionária. Como frisa Alan Woods:
Este fato tem relação com a diferença fundamental entre a revolução burguesa e a revolução socialista. O socialismo é diferente do capitalismo porque, em contraposição a este último, requer o controle consciente e a administração dos processos produtivos pela própria classe trabalhadora. Não funciona, e não pode fazê-lo, sem a intervenção consciente de mulheres e homens. A revolução socialista é qualitativamente diferente da revolução burguesa porque somente pode se realizar através do movimento consciente da classe trabalhadora. Ou o socialismo é democrático ou não é nada. Desde o próprio início, no período transitório entre o capitalismo e o socialismo, a administração da indústria, da sociedade e do Estado deve estar firmemente nas mãos dos trabalhadores.
As Revoluções Burguesas dos séculos 17, 18 e 19 que foram fundamentais para destruir a ordem feudal e pavimentar as condições para o capitalismo, paradoxalmente jamais planejaram este mesmo capitalismo.
Quando Thomaz Jefferson liderou a Revolução Americana contra a Inglaterra é certo que ele combatia as restrições mercantilistas que impediam o desenvolvimento dos mercados. Da mesma forma os revolucionários franceses em 1789 combatiam conscientemente os privilégios aristocráticos que privavam a sociedade da liberdade política e econômica.
Entretanto, nem Jefferson, nem Robespierre, e nem Danton poderiam prever que as Revoluções que dirigiram seriam decisivas para a consolidação do modo de produção capitalista. Jamais poderiam prever a generalização da grande indústria, o surgimento de um enorme proletariado, a integração dos mercados mundiais promovidas pelo capital, etc. Não é à toa que nas Revoluções Burguesas nunca existiu um “partido capitalista”...
Bem diferente é o caso da transição do capitalismo ao socialismo. Mesmo se não podemos prever em detalhes como será a sociedade socialista, nós marxistas sabemos com precisão pelo que lutamos: uma sociedade baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, onde a planificação econômica suplante a anarquia do mercado, onde a exploração do homem pelo homem seja suprimida, etc. É por isso que os marxistas lutam pela formação de partidos genuinamente e conscientemente socialistas.
Stalinistas e social-democratas defenderam por anos a ideia de que a transição ao socialismo viria naturalmente com o desenvolvimento das contradições do capitalismo. Em especial nos países atrasados, defenderam a ideia de que eram necessárias alianças com as burguesias nacionais para “desenvolver as forças produtivas”. Só assim, num futuro indefinido e longínquo se poderia pensar na transição ao socialismo.
Mas sabemos, todavia, que na atual etapa imperialista do capitalismo esta política só serve para encobrir uma capitulação ideológica e política à burguesia. O socialismo não surgirá meramente a partir do desenvolvimento natural do capitalismo e de suas contradições.
E aqui reside toda a atualidade da teoria da Revolução Permanente de Trotsky. Os países atrasados – como o Brasil - jamais poderão seguir o mesmo caminho dos países que historicamente se transformaram em imperialistas. Desde o início do século XX, o mercado mundial foi dividido entre um punhado de grandes monopólios oriundos de um punhado de países. Para as burguesias dos países atrasados coube apenas um papel de “sócia menor” do imperialismo. São burguesias covardes, com medo das massas, e incapazes de promover a soberania nacional e o estabelecimento de verdadeiras conquistas sociais.
É verdade, por um lado, que a existência de uma forte Internacional Revolucionária por si só não é garantia de vitória da Revolução Socialista. Como o próprio Lênin nos ensinou, a Revolução depende do surgimento de situações revolucionárias, em que os de baixo não aceitam viver como antes e os de cima não conseguem governar como antes.
Entretanto, toda a experiência história é rica em demonstrar que sem o partido e sem a Internacional, o êxito desta luta torna-se impossível quando surgem as situações e crises revolucionárias. As oscilações do processo revolucionário na Venezuela mostram de maneira cabal a importância da constituição de partidos revolucionários de massas.
Os reformistas de todo o tipo costumam alegar que as massas não estão preparadas e educadas para uma transformação socialista. Por isso decidiram que o que resta é buscar “humanizar” e “civilizar” o capitalismo, como se isso fosse possível. No fundo, eles se escudam nas dificuldades de lutar pela organização revolucionária dos trabalhadores para justificar suas posições políticas.
É certo que ninguém em sã consciência julga que é fácil a luta do marxismo revolucionário hoje. Mas constatar tais obstáculos é muito diferente de postergar a luta para o dia de São Nunca. Inclusive porque para se construir o amanhã é necessário lutar e se organizar hoje, ter um programa hoje, manter os princípios hoje e garantir a independência política perante o capital hoje.
As ideias marxistas e a conjuntura no Brasil e no PT
Todo o debate acima mencionado guarda total relação com a conjuntura política do Brasil e com as posições do Partido dos Trabalhadores. Nascido das grandes lutas contra a ditadura militar e a exploração da classe trabalhadora, a direção do PT não apenas tem abandonado as origens socialistas do partido como tem defendido uma política de defesa do capitalismo.
A Resolução Política aprovada no 3º Congresso do PT (2007) é clara sobre que perspectiva se move o governo Lula e a maioria dos dirigentes do partido:
Temos de criar o mercado interno que, com a integração da América Latina, dê dinamismo ao capitalismo brasileiro e promova outro tipo de reforma. A partir daí poderão surgir outros temas em discussão, aparentemente proibidos hoje, como a propriedade social e o caráter da empresa privada. Cria-se uma perspectiva socialista, e não só de reformas dentro do capitalismo.
Assim como Dietrich, tais dirigentes sustentam a possibilidade de se conviver com o mercado e “dinamizar” o capitalismo e ao mesmo tempo manter suas saudações à bandeira do socialismo. Defendem a necessidade de coalizão com a burguesia e seus partidos. Alimentam ainda o mito de um “Brasil potência” capitalista. Num futuro incerto, após anos de capitalismo, aí sim poderíamos pensar em socialismo.
Tal discurso em grande parte tem sido alimentado pelo crescimento econômico do Brasil nos anos pré-crise. O boom de exportações, os investimentos estrangeiros, o crescimento do consumo via crédito criaram a falsa ilusão de que o capitalismo poderia ser um bom negócio para o povo brasileiro.
Agora com a crise, com a volta do desemprego e com a queda da atividade econômica, a dura realidade volta à tona. Os argumentos de que o Brasil estaria blindado diante da crise não resistem a qualquer análise séria. É verdade que as isenções fiscais e pacotes de estímulo puderam ainda evitar uma queda maior da demanda e consequentemente um maior aprofundamento da crise. Entretanto, a recuperação da economia brasileira está muito longe de ser alcançada. Os capitalistas, daqui e do exterior, temerosos com o futuro, deixaram de investir. As exportações caíram bruscamente e não se recuperaram ainda.
Nas últimas décadas a abertura econômica tornou o país ainda mais vulnerável às oscilações globais do capitalismo. Por isso enquanto a crise internacional persistir, as perspectivas de uma efetiva retomada são nulas por aqui. Estamos muito longe do “Brasil potência” sonhado por alguns. O que temos na verdade é um Brasil ainda mais subordinado ao imperialismo. Diferentemente dos anos 30 em que foi possível realizar um processo de industrialização e de desenvolvimento relativamente autônomo, agora a coisa é bem diferente. Sob o capitalismo do século 21 não há qualquer perspectiva de um novo “desenvolvimentismo”. As forças produtivas e as finanças capitalistas são tão internacionalizadas e tão poderosas que inviabilizam qualquer projeto nacional isolado, ainda mais em países dependentes como o Brasil.
Bilhões de dinheiro público são utilizados para ajudar bancos e empresas privadas, ao mesmo tempo em que os serviços públicos sofrem cortes de verbas. Mesmo capitalistas que demitem aos milhares são presenteados com a ajuda “amiga” do Estado. Este é o preço que o povo tem que pagar para se “dinamizar” o capitalismo brasileiro?!
Argumenta-se ainda que os bancos brasileiros, diferentemente dos norte-americanos e europeus, não correm risco de falência por serem mais controlados e seguros. Na verdade, este argumento oculta o fato de que o nosso sistema financeiro tem como uma das suas principais fontes de rendimento os juros dos títulos da dívida pública, juros que figuram entre os maiores em todo o mundo. Sendo muito bem financiados pelo orçamento público, porque nossos banqueiros iriam se aventurar em operações tão incertas e arriscadas como fizeram os bancos de outros países?
O fato é que, na medida em que o PT se alia à burguesia, ele se torna refém de sua política. Não é possível conciliar os interesses do capital com os dos trabalhadores e da maioria do povo. Crescem agora no PT as vozes que, como Dietrich, clamam por uma volta do “keynesianismo”. Todavia isto é falso. As políticas keynesianas praticadas no pós-guerra nos países ricos se pautaram na ideia de que era necessário o Estado controlar o capital em nome da defesa do sistema capitalista. O keynesianismo era, em essência, uma teoria conservadora que visava impedir a revolução e o socialismo.
Todavia, o que hoje observamos com a crise é muito mais um controle do capital sobre o Estado do que seu inverso. As ilusões de controle sobre o capitalismo se chocam com um capitalismo cada vez mais incontrolável. Por isso a volta do keynesianismo no século 21 não passa de uma grande mentira. Como Marx disse certa vez, a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa.
Por fim, pensamos que neste contexto, as ideias verdadeiramente marxistas presentes no livro de Alan Woods podem ganhar terreno no Brasil. Mesmo se ainda não estamos vivendo profundas mobilizações, é fato que a crise tem despertado a consciência de inúmeros militantes que buscam uma saída.
Em especial no PT, este debate é fundamental. O Partido dos Trabalhadores, a despeito de sua direção, reúne a maioria dos ativistas e militantes do movimento operário e popular. A contribuição de Alan pode servir e muito no sentido de mostrar que não é possível reformar ou melhorar o capitalismo. Que é hora de virarmos à esquerda e reatarmos com o socialismo. Que é preciso reafirmar as bandeiras que estiveram na fundação do Partido dos Trabalhadores. Que é preciso romper com a burguesia, seus partidos e sua política.
Para quem se destina Reformismo ou Revolução?
Por tudo isso que expusemos neste prefácio, concluímos que é preciso ousar! Mas para isso precisamos de um plano. Precisamos de organização. Precisamos formar as novas gerações na escola do genuíno marxismo revolucionário. Precisamos garantir nossa independência financeira como condição de nossa independência política. Precisamos combater o reformismo e o oportunismo! Precisamos de partidos e de uma Internacional!
Reformismo ou Revolução se configura, portanto, num excelente antídoto contra aqueles que falam em nome da classe trabalhadora para realizar uma política de convivência com o capitalismo. É também uma resposta para todos os que querem domesticar o marxismo, tornando-o um mero exercício acadêmico tão palatável quanto inofensivo. E, fundamentalmente, Reformismo ou Revolução é um livro cujo objetivo é proporcionar embasamento e ânimo para os que seguem firmes na luta!
E para atingir este objetivo, Alan tem a vantagem de ser um profundo conhecedor do tema em questão. Seu livro passeia com desenvoltura sobre os mais diferentes assuntos. A primeira parte, que ora apresentamos, tem como tema o debate sobre o materialismo histórico e dialético e também sobre o caráter da transição do capitalismo ao socialismo, que discutimos um pouco mais acima. Na segunda parte, o eixo será a questão da crítica da Economia Política de Marx. Na última parte, o tema abordado é o debate vivo sobre Revolução na América Latina hoje, com ênfase em Cuba e na Venezuela.
Além do domínio sobre os assuntos abordados, Alan Woods oferece aos seus leitores a enorme experiência prática de um militante que tem atuado no movimento operário em vários países há quase meio século. Por isso seu livro tem o mérito de tratar de questões das mais complexas de uma forma simples e acessível. Um livro escrito para os trabalhadores e jovens que lutam pelo socialismo. São eles que devem assimilar e batalhar pelas ideias de Reformismo ou Revolução. São eles que podem construir um futuro!
Boa leitura a todos!
Daniel Feldmann 23/7/2009